quinta-feira, 5 de abril de 2018

O tamanho do silêncio

Sibélia Zanon


Uma colega me disse uma vez que não gosta de viajar para o meio da natureza ou para cidades muito pequenas porque não aguenta tamanho silêncio.
Fiquei pensando sobre os silêncios e observando alguns deles. O silêncio de fora e o silêncio de dentro.
É possível conquistar o silêncio de dentro, mesmo quando não existe o silêncio de fora, mas o silêncio de fora parece favorecer o silêncio interno.
Já parou para escutar o silêncio?
Parece um paradoxo, mas num lugar silencioso podemos escutar muitos sons. Pode haver diferentes pássaros, que se revezam no canto, a água que pinga de uma bica, grilos ou cigarras e, lá no fundo, o som distante de um rio trabalhando sobre as pedras.
Essa nova capacidade de escutar faz com que possamos notar e valorizar um outro som, bem de perto: o som da nossa própria respiração.
Dentro de um silêncio cabe muita coisa. Cabe encontro, quando nos sentimos unidos a alguém que está perto, e cabe desencontro, quando o silêncio vira penhasco entre duas pessoas.
Cabe também um efeito surpreendente: quando guardamos silêncio sobre algo importante e alimentamos aquele pensamento, o silêncio resguarda e fortalece o potencial daquela semente-pensamento como se fosse uma estufa.
Se o silêncio de fora não é estagnação, o silêncio de dentro pode também não ser. Quando o turbilhão de pensamentos barulhentos se apaga, abre-se novo espaço para a escuta interior mais apurada.

Pode ser que, por incentivar o silêncio de dentro, alguns não gostem tanto do silêncio de fora. Mas melhor seria fazer as pazes com o silêncio de dentro porque, por mais que a gente tente ocupá-lo com diversos barulhos, vez ou outra ele vai se rebelar e se fazer ouvir.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Vontade de esperançar

Sibélia Zanon


Biltis, a rainha de Sabá, levanta um enigma: “O céu todo escureceu, por toda parte aglomeram-se ameaçadoras nuvens de temporal. O aspecto torna-se cada vez mais sinistro… A escuridão do céu ameaçador parece já envolver a Terra… nada mais se vê, a não ser um tênue traço claro no horizonte…”
Ela cala por alguns instantes e pergunta se alguém poderia esclarecer o significado do quadro descrito.
Zadok, o rico comerciante de azeite, manifesta-se, dizendo conhecer o significado. “Eu imaginei a vida como um céu escuro e ameaçador. Apenas o traço claro... o traço claro no horizonte impede que a criatura afunde no medo e horror… Por isso quero denominar o quadro que descreveste para nós de ‘A esperança’.” Biltis festeja a resposta e diz haver um sábio escondido no comerciante. O trecho é do livro Sabá, o País das Mil Fragrâncias,de Roselis von Sass.
A esperança é algo que persiste no interior, independentemente das circunstâncias. Ela possibilita vislumbrar um traço claro no horizonte, também nos dias nublados. O escritor Rubem Alves sugere o seguinte contraponto: “Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração”.
Diferentemente das expectativas, que se concentram em metas bem específicas e carregam em si a cobrança da realização, a esperança autêntica tem alicerces na confiança e o olhar abrangente para o que pode dar certo, mesmo quando um desejo específico não se realiza.
É como se a esperança se ajustasse melhor como passageira de um motorista disposto a fazer as curvas que a estrada apresenta, do que como passageira do motorista que exige dirigir em linha reta e, por isso, se frustra logo que a estrada apresenta outros desenhos. O motorista que aceita as curvas como parte da trajetória, confia no fato de que ainda é possível chegar à cidade desejada, apesar dos caminhos não serem lineares como havia imaginado.
Há quem entenda a esperança como algo a contemplar e aguardar, e há aqueles que entendem a esperança com a vitalidade dos que pretendem alcançar, por si sós, o traço claro no horizonte. Quando só há espera, a esperança perde sua potência e corre o risco de ficar na esfera da passividade, irmã da vitimização. Ao esperar aquilo que virá de fora, corre-se o risco de esquecer que cada um atrai para si algo que encontra eco em seu interior, que surgiu primeiro em forma de sintonização e busca do lado de dentro.
Por isso, há quem aposte na esperança ativa, pautada no fato de que cada um tem responsabilidade por aquilo que acontece na sua vida. “É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…”, sugere o educador Paulo Freire.
É verdade que na vida há momentos de espera, em que é preciso silenciar e respeitar o tempo das coisas, compreendendo que nem sempre aquilo que idealizamos pode frutificar na hora e da forma desejadas. Isso mostra que a esperança precisa ter lastro na realidade para não ser confundida com a ilusão. E também ensina que a sensação de impotência perante certas situações faz parte da trajetória e pode contribuir para o aprendizado da humildade e da perseverança. Carregando em si ensinamentos, a espera não precisa ficar adormecida. Em estado de prontidão, ela pode estar aberta a novas oportunidades.
Sobre a esperança ativa, fala também o educador Mário Sérgio Cortella: “Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve. Por isso, o primeiro passo para ter uma esperança ativa é saber para onde você quer ir e o que você quer fazer. Segundo: colocar-se a caminho, isto é, buscar.”
E o que buscamos? Nutrir uma esperança sempre voltada para modificações talvez não seja a melhor perspectiva. “Quem põe suas esperanças nas modificações, não sabendo o que fazer com aquilo que foi dado, a este falta a vontade sincera, bem como a capacitação; encontra-se de antemão no terreno vacilante do aventureiro!”, escreve Abdruschin. Ao contrário, o escritor sugere olhar para o presente e ver onde é possível fazê-lo florescer, valorizando aquilo que se tem nas mãos e desenvolvendo habilidades antes não imaginadas.
Assim, cuida-se de não alimentar expectativas em relação ao que está longe, ao que é novo e àquilo que não se tem. Essas expectativas muitas vezes seriam frustradas porque o que está distante não se mostra necessariamente tão bonito, quando visto de perto.

A esperança com alicerces na confiança é forte e duradoura. Quando a escuridão do céu é ameaçadora e tem aspecto sinistro, existe o conhecimento de que as curvas da vida têm sua razão de ser e que, por trás das nuvens, o sol espera uma brecha para entrar.

Esperança

Sibélia Zanon


Seja em períodos de mais curvas ou de estradas retas, de mais tempestades ou de tardes ensolaradas, a esperança é abrigo protetor. Abrigo, que cada um precisa construir interiormente. Quando erguido, ele é espaço de paz que facilita a busca de soluções em momentos difíceis. Se os alicerces do abrigo forem feitos de confiança, a esperança será forte e duradoura.


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

O grande pode estar no pequeno


Sibélia Zanon


Às vezes, no meio do gramado, nasce uma miniflor. Uma margarida em tons amarelos com minipistilos. Seu pólen atrai pequenas abelhas e insetos. É como se ela tivesse sido esculpida com o mesmo apreço e a mesma precisão dispensada às maiores obras da natureza. Minuciosamente.
Ao olhar de perto, quem ousaria dizer que uma flor grande tem valor diferente?
Se pensarmos sobre as atividades desenvolvidas pelas pessoas, sejam trabalhos pequenos ou grandes, o que é grandioso?
Quando um trabalho é cuidado do início ao fim e entregue de maneira limpa, quando os prazos são cumpridos, quando o que é prometido é realizado, quando o capricho aparece no acabamento, quando o atendimento é cuidadoso e gentil, quando não há oportunismo, mas há oportunidade de florescer… transparece algo de grande!

Cada pequena ação pode estar impregnada de grandiosidade, quando guiada por um desejo do bem.




fotos: Sibélia Zanon