terça-feira, 4 de julho de 2017

Acertos e Erros

Sibélia Zanon

Faz algumas semanas dirigi 30 km, por uma hora, à noite, para ir a um curso que começaria naquela terça. Quando cheguei à recepção do instituto, 15 minutos antes do início, a recepcionista disse que o curso só começaria na semana seguinte. Ela desfilou uma lista de justificativas para o fato de não ter me avisado em tempo e, assim que a lista acabou, eu fui embora.
Fui embora com a mania daqueles que escrevem e querem editar o texto sempre uma vez mais. Naquela ocasião, eu queria editar o episódio. Na minha ficção, a recepcionista pediria desculpas e me convidaria para conhecer o instituto e para tomar uma água.
Mas a vida é real e nem sempre admite edições. Na vida real, aprendemos desde pequenos que é feio errar, que devemos ganhar e acertar e que o erro é sinônimo de fracasso. O erro raramente é apoiado como parte de um processo que poderá levar ao acerto. Assim, pedir desculpas significa assumir uma responsabilidade ou um erro e isso pode ter um preço. Mas será que temos pensado no preço de não assumi-los? Já escutei adultos falando para crianças que desculpa e obrigada são palavras mágicas. Eu acho que eles têm razão.
Basta imaginar o que é dirigir um carro sem amortecedor e depois dirigir outro com. Pedir desculpas funciona como um amortecedor das relações, algo que nos torna mais humanos, fortes por assumirmos nossa vulnerabilidade, mais aconchegantes e acolhedores.
E qual o preço de sermos aconchegantes e acolhedores? Qual o preço de assumirmos que somos pessoas em processo de aprendizagem que podem falhar? Não importa, porque certamente mais alto é o preço de se sentir permanentemente impotente, incapaz e sem a coragem de assumir quem se é.
Talvez posicionar-se perante o outro, aceitando os próprios acertos e erros, seja um preço justo a pagar para tornar-se uma pessoa mais potente e para que as crianças finalmente entendam, por exemplos práticos e não apenas no discurso, o quanto as palavras podem ser mágicas.


sábado, 3 de junho de 2017

Leopoldina


Roselis von Sass propõe ler o Brasil de forma espiritualizada e efetua um exame detalhado dos fatos que antecederam a Independência do Brasil e culminaram com a emancipação política do país.
Jovem, Maria Leopoldina, princesa da Áustria, viu-se conduzida a um mundo distante – o Brasil. Tornou-se a primeira mulher a ter seu papel político reconhecido no país.
Pode-se dizer que a educação que a princesa recebeu na Áustria foi uma educação-modelo para a sua época. Faziam parte de seus estudos: leitura, escrita, aritmética, alemão, francês, italiano, latim, desenho, pintura e música. Leopoldina era especialmente interessada em mineralogia, botânica, ciências naturais, astronomia e física, tendo ainda talento para a música e a pintura.
Em diversos momentos na sua formação, ela teve a atenção voltada para o Brasil. Inicialmente, aos 10 anos, por conta de um professor de religião, padre jesuíta vindo de Roma, que contava sobre as perseguições aos jesuítas no Brasil, sobre o Descobrimento e a perseguição aos índios. Leopoldina sentia-se atraída por aqueles relatos e passou a conhecer a História do Brasil melhor do que qualquer pessoa na Áustria.

Junto a seu crescimento intelectual, ela passava interiormente por importantes experiências. Quando criança, pôde ver sua mãe falecida em algumas ocasiões. As suas narrativas a este respeito geravam estranheza e certa repulsa nos mais velhos.
Mas aquelas visões tiveram importante influência em sua vida, pois foi dessa forma que ela passou a compreender que as pessoas não morriam realmente, porém “se arrastavam para fora do casulo”. Assim a menina comparava a morte do corpo humano físico com a transformação vivida pelas borboletas.
Naquelas ocasiões, sua mãe aparecia sempre envolta em uma luz azul-clara, e mais tarde Leopoldina viu aquela mesma luz em momentos decisivos e fundamentais de sua vida, podendo confiar nos auxílios que surgiram.
Quando a princesa Leopoldina chegou ao Brasil, tinha 20 anos de idade. Por todo o período em que esteve no país, lutou junto a grandes personagens pela Independência. A vida difícil ao lado de Dom Pedro nunca se constituiu em empecilho para suas importantes realizações. Leopoldina segui sempre em frente, guiada por grandes objetivos.

Uma das personagens mais importantes de nossa história, Leopoldina trouxe, na sua comitiva, cientistas e artistas; no seu espírito, esperança e missão. O grande poder de decisão e a perseverança da Imperatriz influenciaram na formação de novos caminhos para o país, culminando com o famoso grito da Independência.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Pequenos faróis

Sibélia Zanon

Foi num sábado cedinho que me encontrei com ela. Branca. Iluminada por mínimos faróis amarelos. De dentro para fora. E em meio aos faróis, uma estrela potente. Muitas e muitas pétalas delicadas e fortes – sim, porque delicadeza não significa necessariamente fragilidade – protegiam os pequenos faróis. Não é à toa que um de seus nomes populares é “Rainha da Noite”. Em alguns minutos, o sol bateria diretamente em suas pétalas e em poucas horas ela se fecharia para o mundo. E naqueles momentos em que fiquei ali e vi as abelhas trabalharem, tive a impressão de estar dentro de um quadro, de uma pintura clássica, de um retrato da harmonia, de um segundo imortal. Aquele encontro era a harmonia invadindo o meu dia.
A natureza encanta ao materializar a harmonia em muitas de suas relações. O mutualismo, relação biológica em que não há perdedores, pode ser visto, por exemplo, na polinização. Insetos, mamíferos e aves obtêm alimentos, como néctar e frutos. Em troca, realizam a dispersão do pólen e das sementes. Além da abelha e da flor, o ser humano também sai ganhando com a propagação do alimento na natureza.
Da mesma forma, a harmonia também caminha por outras áreas. Entre tantas artes, a música é dadivosa ao evidenciar a harmonia. Quando não há apenas dissonância, mas um acorde principal regente que conduz e direciona a melodia, a harmonia se faz escutar.



E qual seria a nossa participação nessa música do mundo? E nas harmonias e dissonâncias da vida cotidiana? Participamos mais do que imaginamos. Assim como as dezenas de pequenos faróis da Rainha da Noite, nós também temos nossos próprios faróis. E muitas vezes, nas ações sutis, acendemos uma pequena luz. Quando cuidamos insistente e repetidamente de algumas questões, esse cultivo pode tornar-se uma forma de viver que se traduz num exercício de mais harmonias e menos dissonâncias.
Recusar pensamentos de rancor e ódio faz um farol acender. Fazer da palavra um instrumento de coerência, falando apenas o que confere com aquilo que se sente e pensa e, ainda, sustentando o que se fala, é mais um farol aceso. Buscar entender o que vem do outro e cuidar para não feri-lo com nosso modo de ser e agir são outros tantos faróis acesos. Cada vez que surge um desafio sobre o qual a reação descuidada seria um xingamento e uma porção de ódio destilada para o mundo, a reação cuidada pode ser geradora de harmonia. A influência disso não se traduz apenas num perímetro particular, mas também no global, porque muitos pequenos faróis acesos incandescem a harmonia do mundo, ao contrário de muitos faróis apagados ou mesmo queimados e sem conserto.
É bem verdade que há ambientes em que é difícil exercitar a harmonia, pode não ser possível experimentar a harmonia coletiva. Mas, individualmente, cada um pode exercitar a sua postura dentro de cada situação. Isso não significa que harmonia seja sinônimo de passividade ou de um encolhimento da maneira de ser pessoal. Mas é a busca do equilíbrio, que colabora ao invés de agredir. E, aqui entre nós, o mundo já está abundante em agressão e carente de gestos de profunda harmonia.

Se cada um buscar esses pequenos encontros com a harmonia, seja no pensamento, na fala ou na ação, em algum momento essas pessoas se transformarão em um ser propagador de harmonia porque, querendo ou não, sempre acabamos exalando aquilo que somos de verdade, lá no íntimo, bem do lado de dentro. E é difícil esconder uma multidão de pequenos faróis acesos. Aprendi com a Rainha da Noite.