terça-feira, 7 de março de 2017

Era uma vez uma flor

Sibélia Zanon

No grande aquário com vidros arredondados, que ia quase até o teto do restaurante, não havia peixes extraordinários. Havia apenas alguns peixes um tanto pequenos para o tamanho do aquário, talvez peixes de 8 a 11 centímetros de comprimento em tons de marrom e alguns daqueles listrados em amarelo e preto, lembrando o Nemo. Entre os pequenos, nadavam dois peixes pretos, um pouco mais corpulentos, de uns 18 centímetros.
No fundo do aquário havia pedrinhas pequenas granuladas, alguns pequenos troncos decorativos e… plantas de plástico. Uma delas tinha uma haste verde de uns 8 centímetros de altura com flores em tom pink de uns 4 centímetros de diâmetro.
Enquanto eu devorava minha feijoada, olhei para o lado. Um dos peixes pequenos tentava, sem sucesso e por consecutivas vezes, devorar a flor pink de plástico.
Fiquei pensando em tudo o que parece, mas não é, como aquela comida colorida, que lembrava as cores incríveis dos corais dos mares, mas não passava de um engodo, uma ilusão. Senti-me solidária e, em parte, parecida com o peixe.
Quantas vezes não me vi – e ainda me vejo – consumindo uma porção de coisas ilusórias e de plástico? Desde as comidas bonitas e cheias de açúcar refinado ou gordura hidrogenada, que a longo prazo matam em vez de alimentar, até ideias e necessidades fabricadas e – bem recebidas por uma maioria –, que não combinavam com o que eu queria ser.
Acho que o dono do restaurante quis alegrar os clientes, colocando o aquário. Mas penso que ele também caiu na armadilha das ilusões de plástico. Parece alegria, mas não é.

Roselis von Sass
Fios do Destino Determinam a Vida Humana

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Dragões voadores


Os dragões aparecem nas tradições mitológicas de diversos povos. Na China, por exemplo, o dragão é uma figura associada à abundância, prosperidade e fortuna.
Eles também são figuras recorrentes no cinema, nos brinquedos e no imaginário de muitos, que pegariam de bom grado uma carona nesses répteis gigantes, capazes de planar no ar.
Dizem que o animal que hoje mais lembra um dragão é o dragão de Komodo, que vive na Indonésia, tem até 3 metros de comprimento e chega a pesar 70 quilos. Trata-se do maior lagarto do mundo.
Hoje, para muitos, o relacionamento entre humanos e dragões parecerá fantasioso e improvável.
Mas num tempo em que o medo e a tristeza não permeavam a relação entre seres humanos e animais, tudo pode ter sido muito diferente.
A admiração ou paixão que muitos nutrem pelos dragões voadores pode até ser uma saudade ou uma lembrança dessa relação de confiança e respeito com tudo o que é da natureza. Coisas que merecem ser resgatadas.


“Voar em dragões constituía uma vivência única, com a qual cada homem sonhava desde a juventude. Considerando o grande número desses animais que vivia naquela época no país, havia relativamente poucos ‘voadores’ de dragões. Os responsáveis por isso eram os próprios dragões, pois comportavam-se de maneira muito peculiar na escolha do homem a quem estavam dispostos a reconhecer como amo. Sim, os dragões escolhiam seu amo, e não o contrário.
Vejamos: um homem que desejasse voar em dragões, tinha de procurar uma fêmea de dragão. Isso demorava alguns dias ou semanas, conforme a região onde ele habitasse. Tendo encontrado o animal, tinha de aproximar-se dele. A melhor hora para isso era à tardinha, quando os dragões estavam sentados, satisfeitos, perto de suas grutas. O visitante humano, naturalmente, não vinha de mãos vazias. Trazia consigo gulodices que esses animais comiam com especial prazer. Eram doces de mel enrolados em folhas.
O dragão observava com a cabeça bem erguida e sem o menor movimento a aproximação do estranho. O cheiro e tudo o mais que emanava desse estranho já há muito tinha chegado até ele, tendo sido ‘examinado’.
Se o resultado do ‘exame’ fosse favorável, o dragão movia seu pescoço comprido de um lado para outro, como num cumprimento, enquanto suas asas vibravam levemente.

Ao ver esses sinais, o estranho aproximava-se rapidamente do animal, passava a mão carinhosamente pelo pescoço escamoso e ofertava-lhe os doces de mel, que eram aceitos de bom grado. A união ou pacto estava então selado, perdurando geralmente por toda a vida.”

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Entre a terra e o ar

Sibélia Zanon


A disciplina não tem uma boa fama. E ela pode mesmo incomo­dar porque, inicialmente, qualquer tipo de disciplina parece corporificar a quebra de um padrão de acomodação. Ela representa a exigência de que uma energia se precipite para fora, em forma de ação concreta. Quando falo aqui de disciplina, refiro-me à capacidade de se ter constância e de se manter concentrado em determinadas tarefas que pareçam ter relevância ou que este­jam associadas a uma meta.
O ortopedista da minha família, especiali­zado em coluna, conta que aprendeu a disciplina com seu pai. Quando criança, o pai pilotava e o levava junto. O menino ficava cansado de tanta demora para a brin­cadeira começar. Antes do voo, seu pai checava todos os itens relacionados à segurança pessoalmente. O menino tentava apressá-lo e o pai dizia: Nunca me aconteceu nada no ar, porque eu cuido das coisas na terra.
Assim como há disciplinas e disciplinas, também há pessoas e pessoas. Há aquelas natural­mente mais regradas, concen­tradas e disciplinadas, e há outras naturalmente menos sistemáticas. E nisso tudo não há certo e errado, bom e ruim, nenhuma receita padrão universal. Uma pitada de indisciplina pode colocar um pouco de arte na vida, e cada um vai ter de descobrir quanta e que tipos de disciplina ou indisciplina cabem no seu pacote cotidiano.
Fato é que enxergamos e recla­mamos do lado incômodo da disci­plina quando estamos guerreando com um objetivo, quando queremos mudar algo ou alcançar uma meta específica, mas não conseguimos ter a força que impulsione a mudança dese­jada. Aquela mudança não faz ainda parte de quem somos e, para que passe a fazer parte, haverá um caminho de experimentação e conscientiza­ção que tem seu custo.
A forma de se alimentar ou os exercícios físicos são exemplos frequentemente relacionados à disciplina. Segundo Flavio Passos, pesquisador em nutrição e gas­tronomia saudável: “Disciplina é liberdade, um poeta disse uma vez. E de fato a conquista de disciplina te liberta dos vícios que te prendem a comportamentos não construtivos. Não se deve buscar a disciplina rígida porque quando você puxa demais a corda do violão, ela arrebenta. Ao mesmo tempo, se você não tem nenhuma disciplina, a corda do violão fica frouxa e aí o violão não toca. A disciplina que é útil é aquela que não gera tensão e nem sensação de privação, mas que te mantém no foco daquilo que você quer realizar”.
Um aspecto interessante, que talvez colabore para que rejeitemos a disciplina, é que aprendemos, desde pequenos, a esperar tudo o que é bom e feliz do extraordinário (férias, viagens, o dia do casamento, o salto de paraque­das, caviar, paixão), mas é no ordinário (rotina, trabalho, feijão, repetição, afeto) que a vida se constrói. E talvez essa seja a grande e maior lição embutida em qual­quer disciplina que decidirmos agregar à vida: reconhecer, aceitar e aprender a lidar com o fato de que precisamos fazer do ordinário e do coti­diano algo que valha a pena.
Em Walden – a vida nos bosques, Henry David Thoreau escreve: “Temos de aprender  a redespertar e nos manter despertos, não por meios mecânicos, mas por uma infinita expectativa da aurora, que não nos abandona nem mesmo em nosso sono mais profundo. Desconheço fato mais estimulante do que a inquestionável capacidade do homem de elevar sua vida por um esforço consciente.” 
 É verdade que todos precisamos de uma pitada do extraordinário, mas ela vai fazer mais sentido se tivermos uma base de construção cotidiana forte e se soubermos que tudo é conquistado, que existe algum tipo de exigência e de persistência para chegarmos a um objetivo e que é preciso cuidar das coisas na terra para só depois conseguir voar.

Disciplina


Sibélia Zanon

Disciplina pode ter alguma relação com liberdade? Há quem diga que sim. Por mais estranho que pareça, enquanto estamos distraídos, podemos nos acostumar com hábitos que não trazem satisfação, saúde ou felicidade. Podemos desejar, sem foco, apenas eventos extraordinários, que nos salvam do que possa parecer uma vida comum. Talvez, aqui e ali, a disciplina possa ajudar a encontrar um equilíbrio, que não exclua a espontaneidade, mas também não permita a navegação num barco sem rumo.

“É a vontade que faz o homem grande ou pequeno.”
Friedrich von Schiller