quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Colher experiências




Quando pequena eu gostava de colecionar sementes que achava no quintal. Chamava-as de nenéns e cuidava delas como se cuida de gente pequena. Olhava uma a uma e juntava-as num saquinho de pano ou nos bolsos da calça fofa de veludo. 
Colecionar experiências é tarefa exigente. Depende da intensidade ou atenção com que vivemos o presente e nele nos movimentamos. Depende da abertura que desenvolvemos para aproveitar toda a potencialidade daquilo que nos acontece. Depende, ainda, do poder de maravilhar-se com o ordinário no cotidiano.
Assim, muitas vezes, uma vivência pode ser despertada por uma observação atenta da natureza e até mesmo por meio de um filme, um livro, uma notícia, uma música e não apenas por aquilo que nos atinge de forma intensa, sejam insucessos ou felicidades.
Contudo, para conseguir extrair das experiências o significado é preciso movimentar-se. Isso não significa, necessariamente, buscar experiências extraordinárias, mas ter o eu aberto e atento ao presente e a todos os pequenos e grandes acontecimentos, refletindo sobre as ações individuais e coletivas, suas motivações, consequências e significados. Com o olhar alerta, podemos ir colecionando aquelas sementes do cotidiano, que guardam em si o potencial de brotar vivências significativas dentro de cada um.



 Jesus Ensina as Leis da Criação

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Pensamentos de chuva

Sibélia Zanon


“Gosto de dirigir em dias de chuva”, disse uma vez um amigo, ao contar que não tem tempo de parar para ficar olhando a chuva e, por isso, aproveita para admirá-la quando precisa dirigir nos dias chuvosos.
O ponto de vista curioso 
e original dele me fez pensar 
na minha relação com a chuva. Lembrei-me de uma tarde de verão, em que meu marido e eu fomos surpreendidos por um temporal no quintal de casa e corremos para o terraço. Ficamos ali abrigados, olhando o espetáculo da chuva como quem assiste a uma peça teatral.
Sentindo o vento forte, ele comentou que os pássaros respeitam a chuva e foi aí que fomos acometidos por uma porção de curiosidades de criança: “Qual seria o ponto de vista do pássaro sobre a chuva? Onde os pássaros se escondem? Eles têm suas casas protegidas nas árvores, mas há árvores que balançam tanto com a chuva...” A natureza pinica perguntas na nossa cabeça, assim como as gotas fortes de chuva fazem na nossa pele.
Os pássaros respeitam o vento e a chuva. Se o temporal vai ser forte, eles percebem antes de qualquer humano e partem para um local seguro.
Eles respeitam a natureza, entendendo que há coisas mais fortes do que suas asas. E nós? Sabemos nos curvar à chuva? À natureza? Ao que a vida nos traz ou nos propõe? Ou insistimos em voar, estabanados, correndo riscos, asas molhadas e empurradas pelo vento? Destemidos ou desrespeitosos?
Naquela tarde, quando a chuva decidiu ficar mansa, o mundo ao redor foi mudando. A voz do trovão se calou e os pássaros recuperaram a melodia, como se uma felicidade esquecida desabrochasse. Uma alegria pelo poder das asas, que ganhavam leveza de novo, uma alegria pelo frescor das plantas que abrigavam água de beber. As bromélias eram um cálice e as poças d’água uma banheira.

Talvez a vida pudesse ter mais desse frescor se aprendêssemos com os pássaros o respeito pela chuva e por tantas outras forças da natureza. Eles continuam com o poder do voo porque sabem aguardar a hora de voar, sabem recuar, sabem dialogar com outras forças. E nós? Como estamos dialogando com a chuva?


“Eu queria usar palavras de ave para escrever.”
Manoel de Barros

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Primavera

Sibélia Zanon


As videiras dormem no inverno. Hibernam. Há, contudo, uma força latente dentro delas, que aguarda um chamado. O chamado da primavera. Dentro de cada um de nós também existem elementos que hibernam. Hibernam ideias, conceitos, certezas sobre como as coisas são ou não, certezas sobre como deveriam ser... No nosso caso, para todos esses elementos um tanto adormecidos que nos habitam, também existe uma primavera. Mas não uma primavera climática, com data marcada, e sim uma primavera circunstancial, provocada pelas oportunidades de vivência que a vida traz.
Ao longo de toda a vida, passamos por experiências importantes. Quando essas experiências deixam 
marcas, elas se transformam em vivências,
 aquelas situações que nos impactam de forma profunda e enriquecedora
 para novas percepções e que despertam nossa sensibilidade para
 aspectos da existência – os quais
 até então não tocavam nosso 
íntimo – modificando nosso
 modo de sentir e enxergar a 
vida e até a nós mesmos. Essas
 marcas ou impressões fortes
 passam a constituir a nossa mais importante base de entendimento da vida. Assim, a vivência pode dar significado, vivacidade ao que dormia. Vez por outra ela chega como uma provocação, convidando o que dorme lá dentro a ser despertado. Afinal, sono eterno nem a Bela Adormecida tem. Tudo e todos acordamos um dia e quase nunca por causa do beijo de um príncipe.
Conceitos emprestados, certezas ilusórias, realidades construídas com açúcar... tudo isso um dia é convidado à autenticidade. E quem já teve a oportunidade de vivenciar esse tipo de transformação sabe que dissolver uma ilusão e construir uma realidade não é um processo indolor.


Diz a lenda que uma maçã caiu na cabeça de Isaac Newton, físico inglês, fazendo-o descobrir a lei da gravidade. Newton percebeu que a maçã caiu porque havia uma força atraente puxando-a, força essa exercida pela Terra. Se uma maçã caísse na minha cabeça, provavelmente não aconteceria muito mais do que um hematoma. Assim, o que é vivência para um, pode não ser para outro, pois o que cada um carrega dentro de si é fundamental para a maneira como ele vai interpretar uma experiência. Daí o fato de as vivências terem impactos diferentes nas cabeças e no interior de cada pessoa, ainda que os fatos ou acontecimentos sejam exatamente os mesmos.
Essa riqueza, que é o conjunto de vivências significativas que pertence a cada um, não se doa e não se empresta, porque cada pessoa é confrontada com as vivências de que precisa, da maneira que precisa, para o seu desenvolvimento único e pessoal. Pode-se até compartilhar impressões e certezas, mas o que ficou vivo dentro de uma pessoa, dificilmente se transfere com a mesma vivacidade para uma outra. Assim, querer poupar o outro de sofrimentos e, com isso, impedir que ele vivencie as questões que se colocam na sua própria trajetória, não tem propósito.
Contudo, isso não significa que precisemos saber o gosto de absolutamente tudo para chegarmos à convicção ou consciência sobre qualquer aspecto da vida. Se assim fosse, não haveria anos de vida suficientes para experimentarmos tudo e muitos riscos estariam envolvidos. É claro que podemos covivenciar situações, podemos aproveitar a experiência do outro, na medida em que buscamos nos colocar no lugar de alguém que sofre ou compartilhar impressões autênticas e profundas.


Na trajetória, deparamos ainda com um desafio pelo caminho: nem tudo o que se experimenta constitui uma vivência. Entre as etapas das videiras há um momento de tensão, quando as flores estão aguardando a fertilização. A chuva pode diminuir a temperatura ideal para a fertilização e arrastar consigo parte significativa do pólen disponível. É nessa fase que pode ocorrer a queda das flores ou frutos jovens ou, ainda, sem a fertilização, o bago permanece pequeno e os cachos de uva fracos e frouxos. Quando vivemos uma experiência, mas não temos a maturidade para compreendê-la de fato e não conseguimos extrair o que de útil ela traz, ela pode passar sem ser percebida, feito flor de uva derrubada no chão. Pode ser que precisemos reviver a mesma história em outro formato por mais vezes até que, enfim, ela possa ser assimilada e transformada numa vivência com poder de conscientização, com o peso e a beleza de um cacho de uva bem formado.

O poder das vivências mostra, assim, que não adianta termos fórmulas prontas, com uma porção de conceitos engessados, para o viver, porque é na prática que assimilamos de maneira profunda sobre a verdade das coisas. Acumular certezas e conceitos emprestados não é a chave para a sabedoria, porque só sabemos realmente sobre aquilo que está marcado em nossa história de forma profunda, vivida, experimentada. As videiras hibernam no inverno, mas há de chegar a primavera.