terça-feira, 26 de setembro de 2017

Conviver: exercício de ser

Sibélia Zanon


Pessoas são inspiradoras. A Ana tem um poder de análise muito apurado e consegue ser profunda e sincera ao emitir uma opinião. O Marcos é descontraído e não exige que tudo dê certo nem seja perfeito numa primeira tentativa. Sempre fico admirada com o jeito aberto e acolhedor que a Flávia demonstra diante de meros desconhecidos. A Carla desenvolveu uma habilidade especial de cultivar as coisas e enriquecer o ambiente, ela embeleza tudo que toca.
A convivência com pessoas nos dá a oportunidade de observar a diversidade. Assim, podemos admirar qualidades, avaliar questões da vida por ângulos inesperados e repensar nossas próprias escolhas. Afinal, sempre há outras formas de agir, qualidades a desenvolver, caminhos inusitados a trilhar.
Além de nos beneficiar com a percepção da diversidade, a convivência pode revelar semelhanças inesperadas, ou ainda indesejadas. Os defeitos que mais nos perturbam no outro, podem ser também aqueles que encontramos ao enfrentar o espelho. Isso porque enxergamos com maior destaque no outro aquilo que também somos. E aí é preciso coragem e humildade para assumir que há trabalho pela frente, que temos melhorias a fazer, que estamos em período de manutenção e reforma.
A verdade é que a convivência nos obriga a afiar nosso próprio discernimento a respeito de muitas questões, daquilo que nos é importante ou não, a respeito de nossas crenças mais profundas e de nossa forma de agir, porque de uma forma ou de outra somos desafiados a isso.

Uma amiga me contou certo dia sobre o martírio dos almoços em família aos domingos, e sobre como naquelas ocasiões sofria críticas veladas por conta de seu estilo de vida e de suas escolhas. As intromissões ou provocações, nem tão discretas assim, fizeram com que ela se tornasse mais confiante e mais forte para manter suas escolhas e fincar algumas estacas de limites. Conviver em família não implica a perda do direito à individualidade.


Mesmo conhecendo bem alguém, ele permanece sendo o outro e precisa ser visto assim. Isso impõe limites, tanto para nossa obsessão por controle, quanto para nossas tendências de projeção. Projetar nas atitudes do outro o nosso próprio perfil, imaginando que ele terá reações iguais às nossas é fazer um convite para a frustração. O outro é, definitivamente, uma surpresa. E é desejável aprender a se surpreender.
O poeta Manoel de Barros diz que não gosta de palavra acostumada. Talvez ninguém goste de convivência acostumada também, aquela que se repete por hábito e não por gosto. Há convivências obrigatórias por certos períodos da vida, como com os colegas de trabalho. Mas, na esfera pessoal, temos mais chance de escolha e, assim, maior oportunidade de convivermos com aquelas pessoas que nos inspiram a ser melhores.
Conviver é um exercício de ser. Podemos colher inspiração no outro, mas a colheita é limitada porque também é preciso doar. E enquanto nos ocupamos em oferecer algo, estamos trabalhando em ter mais consistência. Em vez de esperar que alguém nos torne inteiros, buscamos conquistar nossa própria completude. Na certeza de que não existem metades da mesma laranja, é que desfrutamos de forma mais ampla a convivência. Todos laranja inteira, com a potencialidade para ser fibra, suco e compartilhar doçura.


Um comentário:

  1. Leio várias vezes uma mesma dissertação de Abdruschin, e a cada nova leitura uma nova luz escondida se mostra.

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