segunda-feira, 1 de outubro de 2018
quarta-feira, 12 de setembro de 2018
Seguir adiante
Sibélia Zanon
A menina ruiva acena. No enquadramento da tela, o espectador não enxerga outras pessoas, apenas a imensidão de um campo de cultivo dourado. A menina sai em disparada pela plantação e abraça uma única árvore, que se destaca na paisagem. Sente o rosto contra a rugosidade do tronco. Com a ajuda de uma corda e um tanto de habilidade, sobe na árvore e ao olhar a paisagem lá de cima, ela diz, com cerimônia: “Sua perspectiva é maravilhosa!” A cena, que inicia a segunda temporada da série canadense “Anne with an E”, parece como uma rajada de ar fresco.
O contato com a natureza e com tudo o que é vivo é capaz de causar essa sensação, de fortalecer a nossa vitalidade. Assim também acontece quando comemos fruta direto do pé, escutamos o ritmo da cachoeira, percebemos o movimento das asas do beija-flor ou visualizamos a paisagem de cima de uma árvore ou de uma montanha.
Isso acontece porque as coisas vivas parecem ser perpassadas por uma força que tudo abrange e que também alimenta a nossa existência. Essa força, que tudo vivifica, incentiva-nos a cultivar a conexão com algo maior do que nós mesmos. E essa conexão pode ser uma importante chave de fortalecimento da vitalidade.
A vitalidade pode ser compreendida como vigor, capacidade de desenvolvimento e antítese de paralisação. Ter vitalidade é estar alerta e disponível para a vida, ser capaz de buscar força para vivenciar o que vier, seja cachoeira refrescante, seja água estagnada. Enfim, ter energia física e emocional para levantar da cama e seguir adiante, quando um novo dia amanhece.
Se a vitalidade de um corpo pode ser cuidada com ar puro, boa comida, equilíbrio entre movimento e sono… como cuidar da vitalidade anímica? Crescemos desejando que a vida seja interessante para nós. Mais tarde, descobrimos que viver dá um pouco mais de trabalho e que nós também temos de ser interessantes para a vida: descobrir um propósito, cultivar aptidões, alimentar nossos interesses, tatear os próprios limites, responsabilizar-nos pelo que nos revigora e nutre, cuidar das próprias necessidades.
Assim, a vida interior pode ser nutrida e aquilo que uma pessoa anseia, pensa e busca atingir tem consequências. A vida interior estende fios conectores e gera efeitos também materialmente. A vitalidade anímica está interligada à vitalidade do corpo.
Segundo Abdruschin, autor de Na Luz da Verdade: “aquilo que se esforça espiritualmente também se efetiva por fim fisicamente,visto todo o espiritual perpassar a matéria grosseira, razão pela qual cumpre reter sempre em mente a lei da ação de retorno”. E a lei da ação de retorno abrange também os pensamentos.
Por isso, um estímulo para a vitalidade perseverar é não se deixar atormentar por coisas desnecessárias, tal como nutrir pensamentos martirizantes sobre o valor ou desvalor de si próprio e de outros, ou cismar com situações passadas. Não é aconselhável fazer com os pensamentos o mesmo que fazem aqueles que têm o hábito de cutucar a casca de uma ferida, não a deixando cicatrizar. Pode ser que a vitalidade anímica seja parceira da simplicidade no ser e no pensar: viver apreciando o agora e buscando elevar a própria atuação dentro do contexto em que se encontra, positivamente.
Muitas vezes, a forma de olhar determina o padrão dos pensamentos e vice-versa. Quando são construídas, por exemplo, diferentes versões interpretativas ao redor de um fato, a escolha de posicionamento perante essa realidade gera maior ou menor vitalidade. “Diante do espinho, há aquele que só pensa em sua ferida e há o outro que percebe o quanto a rosa está próxima”, sugere Fabrício Carpinejar, poeta gaúcho. Fato é que ninguém vai passar pela vida sem os espinhos, mas a grande diferença é a narrativa que cada um constrói acerca deles.
Talvez não seja necessário subir numa árvore para se ter uma perspectiva maravilhosa. Pode ser que não tenhamos habilidade com as cordas ou destreza física. Mas para se conquistar uma perspectiva diferente, com certeza, há que se cultivar uma grande vontade, destreza na maneira de olhar e a fé de que os espinhos são um indício de que existem as rosas.
Vitalidade
Sibélia Zanon
O que nos move? Experimentar momentos em que a energia parece minada faz parte da trajetória de cada um. Nas fases em que a saúde grita por atenção, por exemplo, é difícil manter o vigor íntegro. Mas num corpo saudável não significa obrigatoriamente que habita uma pessoa com vitalidade. Além dos cuidados que se pode adotar para conquistar a vitalidade do corpo, pode-se também cuidar da vitalidade interior ou anímica?
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Abundância
A abundância, a beleza e a fartura inspiram reverência e nos convidam a participar deste ciclo, semeando o que é bom.
Vídeo baseado em trecho de Na Luz da Verdade - Mensagem do Graal, de Abdruschin.
Vídeo baseado em trecho de Na Luz da Verdade - Mensagem do Graal, de Abdruschin.
sexta-feira, 22 de junho de 2018
A dor e a delícia
Sibélia Zanon
Certo dia, ele foi ao supermercado para
trocar um produto e estava com pressa. O funcionário disse que não poderia
trocar a mercadoria. O gerente confirmou. Ele reclamou seus direitos de
consumidor e ameaçou fazer uma reclamação na central. Demorou, mas conseguiu
fazer a troca. Estava tudo certo. Mas ele saiu de lá incomodado. Não com o
gerente, mas consigo mesmo. Percebeu que havia abusado no tom. Na semana
seguinte, foi ao mesmo supermercado. Procurou o gerente. Pediu desculpas. A
moça do caixa ficou boquiaberta. O gerente o abraçou.
Colocar-se no lugar do outro é a porta de entrada para a
empatia e o remédio certo para equilibrar percepções e ações.
O escritor israelense Amós Oz escreve: “Eu me pergunto:
‘E se eu fosse ele? E se eu fosse ela? O que sentiria, desejaria, temeria e
esperaria? Do que teria vergonha, esperando que ninguém mais soubesse?’ Meu
trabalho consiste em me pôr no lugar de outras pessoas. Ou mesmo estar em suas
peles. A força que me impele é a curiosidade. Eu fui uma criança curiosa. Quase
toda criança é curiosa. Mas pouca gente continua a ser curiosa em sua idade
adulta e em sua velhice”.
Quais são as dores e as delícias de estar na pele que
habitamos? E quais seriam as dores de habitar outras peles?
A pergunta, que pode ser feita
muitas vezes ao longo de um único dia, amplia a própria visão de mundo e
enriquece a nossa capacidade de vivenciar coisas novas, já que não teremos a
oportunidade de viver todas as experiências, mas ao emprestar a dor ou a alegria
do outro, podemos covivenciar um acontecimento singular.
Vivências que impactam o
outro, mas reverberam sobre a própria pele podem nos fazer mais humanos,
contribuindo para uma reavaliação de postura. Em vez de adotar uma postura
demasiadamente crítica, defensiva e condenatória, pode-se escolher uma postura
mais humilde, humana e auxiliadora. Assim como as crianças, talvez devêssemos
cultivar a curiosidade.
quarta-feira, 23 de maio de 2018
Presença
Sibélia Zanon
Conectar-se
com o presente parece tarefa desafiadora. Frequentemente os nossos pensamentos
vagam por situações ou lugares diferentes daqueles em que estamos. No entanto,
quando conseguimos nos concentrar no momento presente, qualquer que seja,
ganhamos intensidade, ganhamos experiências mais significativas de vida. Você
já parou hoje para apreciar o momento presente?
Tocar o agora
Eu vinha caminhando com
os pensamentos em sombras. Olhava para baixo. Foi quando bati a cabeça em um
fruto que pendia do frondoso abacateiro. Olhei para cima e o céu estava azul. A
árvore carregada me conectou com o momento presente. Fez lembrar que a vida
frutifica e brinca, mesmo quando dói.
A vida nos chama à presença de
diversas formas. Quando estamos presentes, somos capazes de sentir melhor o
todo e o outro, de perceber mais apuradamente a conexão entre as coisas, de nos
lembrar da própria respiração e da postura corporal, de buscar o alinhamento
interno-externo: aquilo que somos por dentro refletindo com coerência do lado
de fora.
Concentrar-se no momento pode
parecer tarefa difícil em tempos de grandes preocupações ou grandes distrações
e, sobretudo, em tempos de mentes lotadas. Quando a mente está embriagada de
pensamentos dispersos e diversos, não há espaço para a atenção e corre-se o
risco de perder o presente, a única vida real.
“Cada hora do presente tem de se tornar um verdadeiro
vivenciar para o ser humano! Tanto o sofrimento, como a alegria. Deve ele estar
aberto e assim alerta para o
presente, com todo seu meditar e pensar, e com a intuição. Somente assim terá lucro da existência terrena, lucro esse
que aí lhe está previsto”, escreve Abdruschin em sua obra Na Luz da Verdade.
Refletir sobre isso pode levar a algumas
interrogações: em que ocasiões nos sentimos realmente disponíveis para o
momento? Com que frequência conseguimos acalmar a mente para receber outras
percepções? Como é o nosso estado de escuta: escuta de si mesmo, do outro e da
vida?
“Passo por um ipê florido. A beleza é tão grande que fico
ali parado, olhando sua copa contra o azul. E imagino que os outros, encerrados
em suas bolhas metálicas rodantes, tentando ultrapassar as outras bolhas
metálicas à sua frente, devem imaginar que sou um vagabundo que não tem o que
fazer”, escreve o educador Rubem Alves, lembrando que, quando presentes, somos
impactados e também geramos impacto. Aquilo que enxergamos passa a ter
significado. Por outro lado, as coisas que não notamos ficam nubladas na nossa
existência, mesmo que seja um ipê florido gritando cores em nome da beleza.
“Nossa percepção de realidade está relacionada bem de
perto com o foco da nossa atenção. Somente aquilo que prestamos atenção nos
parece real, enquanto que aquilo que ignoramos, não importa quão importante
possa ser, parece desvanecer em insignificância”, escreve Alan Wallace,
professor americano.
Em que costumamos investir nossa
energia? Em múltiplas tarefas que pulam alternadamente, assim como os canais da
televisão? Em um problema do passado? Na ansiedade acerca de algo que só se
resolverá depois? Quando nos aturdimos demasiadamente com o passado ou o
futuro, fechamo-nos nas próprias angústias e perdemos chances de tocar o agora.
Não vemos a cor do céu porque a cortina de pensamentos nubla o presente e
colabora para que nosso próprio corpo se comporte como uma bomba-relógio.
É verdade que no presente pode haver dor e o objetivo não
é ignorá-la, mas buscar não ampliá-la para além de seu tempo, sobrecarregando a
mente e o coração com angústias aumentadas. E como fazer, então, para cultivar
a presença e empregar a própria energia no essencial? Além dos chamados de um
abacateiro ou de um ipê, também precisamos nos esforçar para colocarmos os pés
do corpo e da alma no agora. Uma forma de buscar isso pode ser por meio do
exercício da apreciação.
O especialista em nutrição, Flávio Passos, sugere:
“Saboreie a sua alegria, saboreie as suas dores. Sinta, não fuja daquilo que
você precisa aprender. Saborear o desconforto é a própria alquimia que
transforma chumbo em ouro”. E complementa: “Quanto mais detalhada for a sua
capacidade de sentir a apreciação, o sabor da vida, mais presente você se
torna. Isso é meditação. Então, ao invés de sugerir que você medite mais, eu
sugiro que você aprecie mais a vida”.
Quando paramos para apreciar um
momento, seja ele qual for, voltamos a atenção para o presente. Temos, assim,
chance de escutar, sentir e ver coisas novas. Ver não apenas com os olhos, mas
também com a amplitude das capacidades perceptivas que dormem dentro de cada um
de nós. Por vezes, a reconexão com o presente faz lembrar que, quando olhamos
demais para a dor, esquecemos que a sombra só existe porque há luz. E essa luz
merece toda a atenção.
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