quinta-feira, 17 de maio de 2012

Fios do Destino Determinam a Vida Humana


de Roselis von Sass




Histórias de vida são tecidas pela atuação de cada protagonista. Em épocas difíceis, muitos se questionam: por que isso está acontecendo justamente comigo?

Por meio de narrativas e reflexões, Roselis von Sass passeia por acontecimentos singulares, mostrando
que escolhas e caminhos trilhados geram efeitos. Nada é sem sentido, nada se explica pelo acaso.







As dificuldades que cercam os relacionamentos humanos, as escolhas de alguns personagens e os efeitos gerados por elas são aspectos que levam a refletir sobre o porquê determinados acontecimentos precisam se efetivar, marcando de maneira definitiva cada vida.

Fica claro, em diversas situações, que, por meio da atuação presente, é possível corrigir falhas do passado e construir um futuro melhor.

sábado, 5 de maio de 2012

A dor de existir


Daniela Schmitz Wortmeyer


O Paraíso representa, para alguns, um estado de eterna satisfação e ausência de dificuldades de qualquer espécie. Semelhante concepção se relaciona também a um ideal de felicidade: uma existência preenchida inteiramente por prazer, conforto e realização de todos os desejos. Se fôssemos expressar graficamente, teríamos uma linha reta: nada de curvas, desvios, descidas, subidas, mudanças de direção...

A imagem da linha reta me faz lembrar um eletrocardiograma. Sabe aquele aparelho que por vezes fica ao lado de uma pessoa hospitalizada, registrando as batidas do coração? Pois é, quando vemos nele o desenho de uma linha reta, significa que... o coração parou de funcionar. Já não há mais vida naquele corpo. Se fizermos uma analogia com o ideal de felicidade descrito acima, não nos dá o que pensar?

A palavra existir origina-se do latim ex(s)istere, que é traduzido por expressões como: sair de, elevar-se de, emergir, nascer, provir de, manifestar-se, mostrar-se. É um termo formado por duas partes: ex-, que significa “à frente”, e sistere, “fazer ficar de pé”. Para mim, remete ao sentido de colocar para fora, realizar algo, fazer emergir as potencialidades do ser. Como a planta que realiza o potencial da semente ao projetar o broto para fora da terra, tornando visível a sua essência.
Se pensarmos na existência como afirmação de potencialidades, será que podemos considerá-la um processo fácil?
Uma criança normalmente nasce com potencial para andar como bípede. Tão logo seu organismo atinja maturidade para tanto, vivendo em um ambiente minimamente adequado, ela começa a se movimentar, rasteja, até adquirir o andar quadrúpede: engatinha. Todo o seu corpo se adapta ao deslocamento nessa posição, de modo que adquire proficiência em “andar de quatro”. E eis que no auge desse domínio, quando já se movimenta como um ás entre os móveis da casa, ela voluntariamente se desestabiliza e passa a ensaiar o andar de pé, modificando inteiramente sua perspectiva do mundo. A despeito de toda a insegurança que essa mudança provoca, a criança insiste em realizar seu potencial: desengonçada, caindo e levantando, ela não desiste até dominar o andar bípede. Como a semente que sabe que seu destino é ser planta e luta para realizá-lo, enfrentando todo tipo de obstáculo.
E os adultos, como costumam enfrentar suas limitações? Continuamos parecidos com as crianças, pouco ligando para ridicularizações e fracassos, em busca da afirmação plena de nosso ser? Ou será que preferimos nos acomodar ao já conquistado, evitando passar por desconfortos e situações novas e desafiadoras?
Eu particularmente já percebi que, se dependesse unicamente da minha livre deliberação, estaria em um estágio de desenvolvimento muito anterior em vários aspectos. Por diversas vezes fui colocada pela vida em situações difíceis, das quais não podia me esquivar, e tive que desenvolver dimensões atrofiadas do meu ser. De repente, tive que realizar uma palestra para um grande público, em um imenso auditório... Que desafio! O frio na barriga foi grande, mas no final descobri que eu era capaz de realizar a tarefa. E começar a praticar corrida, então... Eu que sempre era uma das últimas a ser escolhida nos times de esporte da escola, que achava que não tinha nenhum perfil de desportista, tive que desenvolver essa capacidade. E sabe que cheguei até a ganhar medalha em corrida rústica? E aqueles colegas de trabalho difíceis com que nos deparamos vez ou outra, que nos dão, esses sim, vontade de sair correndo... Depois de muito procurar alternativas para conviver com certas pessoas, acabei percebendo o quanto me modifiquei, ampliando minhas capacidades internas, e algumas histórias até terminaram em belas amizades. Lembro-me do pensamento de Gibran Khalil Gibran, filósofo e poeta libanês: “Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos; e, por estranho que pareça, sou grato a esses professores.”
Superar limites exige esforço. Exige vencer aquela vontade de ficar no patamar em que estamos, sem ter que enfrentar desconfortos, sem precisar esticar os músculos adormecidos... Sair da inércia dói. Que o digam aqueles que começaram a praticar uma atividade física, depois de tempos de vida sedentária... Mas seria realmente possível construir uma vida saudável sem sair do comodismo? Não são as conquistas que exigiram maior esforço as mais significativas, que possuem real valor em nossa existência?
Para o escritor Abdruschin: “Um braço só se pode robustecer quando se exercita continuamente. Negligenciando nisso, terá que enfraquecer. E assim também cada corpo, cada espírito! Voluntariamente, porém, pessoa alguma se deixa levar a isso. Alguma obrigação deve prevalecer!” De minha parte, penso que devo agradecer pelos desafios que a vida incessantemente me coloca, por me obrigar a romper com a acomodação. E ter coragem para lutar, enfrentar os obstáculos, expandir meus limites – apesar das dificuldades e resistências internas. Pois como já disseram tantos pensadores: a luta pela vida é a luta pela autoafirmação do ser, pela explicitação de todas as suas potencialidades. Quem vive se escondendo dos desconfortos, evitando todo tipo de situação nova e imprevisível, termina vivendo uma existência muito limitada, tornando-se um espírito encolhido e amedrontado diante dos limites que ele próprio se recusa a ampliar.
Há no mundo rios forçados pelo homem a correr em linha reta. Foram desviados de seu curso natural, cheio de curvas e “imperfeições”, para atender a determinados interesses. Após algum tempo, o que ocorre com esses rios? A vida neles vai se extinguindo, até que os rios simplesmente morrem, pois foi silenciado o “cantar das águas”. O movimento sinuoso das águas, que ultrapassam de forma sutil ou vigorosa os obstáculos do percurso, segue uma sabedoria profunda: não se destina apenas a alcançar um ponto final, mas a vivificar-se no trajeto que percorre, alimentando o fluxo vital.
Sobre o ideal de felicidade, o meu não é mais uma existência em linha reta, porque hoje sei que ela corresponde à própria morte. Quero aceitar os convites que a vida generosamente me oferece para crescer, a despeito dos tropeços, dos ensaios desengonçados, das diversas tentativas necessárias para finalmente aprender... Pois vida é movimento! Apesar da dor do esforço para expandir limites, quando experimentamos a ampliação do ser há vitalidade e alegria inigualáveis.

“Movimento é o principal mandamento para tudo o que existe nesta Criação, pois ela se originou do movimento, é mantida e renovada por ele!” 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Na Luz da Verdade - Mensagem do Graal

de Abdruschin



“Nenhum ser humano se tem em conta de tão insignificante, para crer que sua existência fosse sem finalidade, se ele mesmo assim não a tornasse.”
Apaixonante e intrigante é notar que na vida e no Universo existem sistemas que podem ser reconhecidos por todos e são chamados por estudiosos de leis da natureza. Essas leis são encontradas na simplicidade de cada dia, como no dar e receber, no plantar e colher. Entre elas, podemos destacar a lei da gravidade, a lei do movimento, a lei da atração, e a lei da ação e reação. 
A obra Na Luz da Verdade, em três volumes, discorre sobre diversos ângulos das chamadas Leis da Natureza ou Leis da Criação, eviden- ciando sua relevância para o entendimento do Universo e do cotidiano de cada um. Dentro dessa perspectiva, Abdruschin mostra o caminho para que o ser humano possa atingir vibrações mais altas por meio de seus pensamentos, suas palavras e ações.

Em uma série de capítulos são abordados enigmas da existência, tais como: quem somos; de onde viemos; para onde vamos depois da morte; qual é a finalidade da vida terrena; por que existe tanto sofri- mento no mundo? Cada um deles conduz o leitor a olhar a realidade, a fim de desmistificar dogmas e de considerar sua responsabilidade pela própria felicidade ou infelicidade.
Na Luz da Verdade conduz à percepção de que podemos participar ativamente tanto de acontecimentos próximos quanto distantes que ocorrem em nosso planeta, no presente e no futuro, contribuindo, dessa forma, para a evolução do Universo. Passamos, a partir disso, a compreender a importância dos pensamentos, das palavras e das ações na formação do destino.
Assim, a obra trata de estudos profundos que levam aqueles, que se interessam pela espiritualidade e buscam respostas às diversas ques- tões da existência humana, à redescoberta da responsabilidade por sua própria trajetória.

“A crença não deve ser um manto ocultando magnanimamente toda e qualquer inércia de pensamento, que como uma doença do sono, cômoda e paralisante, desce sobre o espírito do ser humano! A crença tem de se transformar, na realidade, em convicção. Convicção, porém, exige vida, análise aguçadíssima!”

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Maternidade planetária

Sibélia Zanon

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
 - Me ajuda a olhar!”
Eduardo Galeano, escritor uruguaio


A infância nos faz deparar com a surpresa, com o encantamento, com o olhar sensível às belezas esquecidas. A infância é capaz de despertar no adulto o desejo de proteger e de ser melhor. Talvez sejam esses alguns dos motivos pelos quais a maternidade é um presente.
Ser mãe, cada vez mais, é uma opção e não uma consequência de ser casada ou de ser mulher. Embora muitas mulheres pensem assim, há poucas décadas isso era impensável e ainda hoje há quem acredite que ser mãe é a principal função da mulher, que a vida sem filhos é vazia ou mesmo egoísta.
“Uma grande opressão paira sobre toda a feminilidade terrena, desde que foi difundida a ilusão de que o destino principal de uma mulher seria a maternidade”, considera o escritor Abdruschin, na obra Na Luz da Verdade.
Muitas ideias contaminam o solo do senso comum, sem que se saiba exatamente sua origem e, de repente, cresce um exército, que caminha, sem consciência ou convicção, numa mesma direção. “A sociedade contemporânea prega esse ideal da igualdade não individualizada porque necessita de átomos humanos, cada um idêntico ao outro, para fazê-los funcionar em massa, suavemente, sem atrito. Todos obedecendo aos mesmos comandos, embora todos estejam convencidos de que estão seguindo seus próprios desejos”, analisa o psicanalista Erich Fromm.
Ainda que obedecer possa ser uma virtude, de vez em quando é preciso levantar a cabeça e avaliar a que comandante estamos obedecendo e por qual motivo. Convicção, comodismo ou ignorância?
Os grandes desafios e inúmeros encantos que envolvem a maternidade e a paternidade são indiscutíveis. Porém, contribuir para marcar a infância de forma positiva e ser referência não é papel exclusivo dos pais, que geralmente já carregam uma carga grande de responsabilidades e culpas.
Basta fazer um breve exercício de imaginação: como seria criar filhos num mundo diferente? Em um país com publicidade responsável? Numa sociedade em que adultos cuidam de crianças, independentemente de quem sejam seus pais? Em um agrupamento que efetivamente respeita direitos e deveres, que cultiva a ética e os interesses coletivos?



Além da minha mãe, grandes mulheres marcaram a minha infância e continuam marcando a minha vida. Mulheres que buscam humanizar as relações e o cotidiano. Mulheres pensantes, que conseguem misturar ternura e tenacidade. Lembro-me de uma professora que cuidou da minha infância. Ela não fazia todas as nossas vontades e era exigente, mas era capaz de me cativar na mesma medida em que me estimulava a ser melhor. Ela sabia acolher sem perder de vista o rumo.
Nós todos podemos proteger as crianças, definir que tipo de atitude teremos enquanto adultos frente à infância que nos cerca. Mais do que gerar uma criança, é preciso ter a consciência sobre a relevância de ser adulto, de ser humano, sem perder a conexão com o encantamento.
“Não é em vão que nas recordações da infância se insere uma leve melancolia. Trata-se do sentimento inconsciente de ter perdido alguma coisa que deixou um vazio, a incapacidade de intuir ainda infantilmente. Mas decerto tendes notado muitas vezes o efeito maravilhoso e revigorante que causa uma pessoa, apenas com sua presença silenciosa, de cujos olhos irrompe de vez em quando um brilho infantil”, escreve Abdruschin. A minha professora tinha um brilho in- fantil no olhar.
Quando vamos crescer a ponto de sermos exemplos para as crianças? Quando vamos exercitar uma maternidade planetária, que cuida de tudo o que é vivo e precisa de proteção? Quando a nossa pegada pelo planeta vai ser menos árida e mais fértil? Me ajuda a sonhar?!

domingo, 15 de abril de 2012

Cuidar

Sibélia Zanon




A maternidade está cercada de encantos e responsabilidades. Isso não significa que ser mãe seja 
a função principal na existência de uma mulher. Mais do que gerar um filho, as crianças, os adultos, o planeta e tudo o que nele é vivo reivindicam: é preciso cuidar! Cuidar, exercitando uma maternidade planetária, que educa, protege e cultiva o que é bom.

“Quando fundimos nossa vontade humana com a vontade da natureza, temos então o potencial apto a criar um céu na Terra, não apenas para nós, mas para toda forma de Vida.”
David Spangler

sábado, 7 de abril de 2012

Festa da Primavera


A mitologia germânica conta que, originalmente, a Páscoa era uma grande festa da primavera, marcada pela chegada do sol depois de um longo inverno. Os germanos dedicavam suas festividades à deusa da primavera, Óstara, aquela capaz de fazer as sementes tornarem-se férteis. Na Idade Média, a festa cristã se sobrepôs à festa que os germanos dedicavam à Óstara.


"Assim que era anunciada a chegada de Óstara, iniciava-se uma intensa atividade entre os seres humanos. Casas, quintais e estábulos eram limpos, e tudo o que era inútil e velho era queimado... As mulheres preparavam ninhos nas hortas e nos campos, colocando neles ovos pintados de vermelho. Com isso esperavam ardentemente que a deusa os visse e os abençoasse...", conta Roselis von Sass em O Livro do Juízo Final 

Os ovos pintados de vermelho eram símbolo de fertilidade e de nova vida em crescimento. Ainda hoje, na Alemanha, ovos de galinha coloridos fazem parte do café da manhã de Páscoa.




sexta-feira, 23 de março de 2012

Um espaço para a beleza


Daniela Schmitz Wortmeyer

Eu ainda estava meio sonolenta, esperando o transporte para ir ao trabalho, com o coração introspectivo. Acabei me sentando em um lugar onde nenhuma voz me alcançava. Dentro de mim, era como se a manhã tivesse feito uma longa pausa antes de começar a tocar a próxima música.  Então abri o livro, na crônica Restos do Carnaval, de Clarice Lispector. Caminhava docilmente pelo texto, e eis que me detive estarrecida diante da frase: “Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate.” Pausa. Respirei fundo, deixando-me enlevar pela beleza das palavras. Foi como se a rosa escarlate se abrisse em meu peito. Fiquei ali sozinha com a frase, o tempo parado, meus pés querendo sair do chão. E de repente meu mundo também desabrochou: comecei a olhar o trajeto até o trabalho com olhos de poeta, admirando a beleza escondida no cotidiano, filosofando sobre as histórias das centenas de pessoas que se deslocavam ao trabalho como eu.
Dentre os tantos versos sensíveis de Mario Quintana, lembrei-me deste: “Quem faz um poema salva um afogado.” Parece que vivemos nos afogando diariamente em um mar de obrigações, debatendo-nos mecanicamente, com pressa de alcançar a próxima tarefa a ser feita. É comum sequer percebermos que o ar vital está acabando: temos infinitas coisas mais importantes a fazer, do que respirar.
Mas se frequentemente esquecemos a respiração em si, junto com os demais aspectos ligados à saúde do corpo, mais seriamente ainda negligenciamos o “ar” que vivifica a alma. É algo dessa natureza que nos oferece um belo poema, como alude Quintana. A comunhão com a autêntica beleza conecta nosso íntimo com valores adormecidos, despertando saudades do paraíso perdido... Creio que semelhante constatação tenha levado o poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe a proferir o conselho: “Devemos todos os dias ouvir pelo menos uma pequena canção, ler um bom poema, contemplar uma pintura de qualidade e, se for possível, dizer algumas palavras sensatas.”
No filme Minhas Tardes com Margueritte, o inculto horticultor Germain vivencia uma verdadeira transformação ao ser introduzido no universo da literatura pela idosa Margueritte. Como ocorre comumente, Germain tinha aprendido a ler na escola, mas tal aprendizado não alcançara seu coração. Ler se tornara uma experiência desprovida de sentido, permeada de traumas e frustrações. Porém, Margueritte falou à sensibilidade de Germain: na leitura dos clássicos, ele foi encontrando eco para suas questões existenciais, suas dores e alegrias, despertando para uma nova forma de ver o mundo. Pois o contato com a arte nos enriquece: leva-nos a aprofundar pensamentos, sentimentos e intuições, ampliando nossa capacidade perceptiva e por vezes conduzindo nosso íntimo a um patamar superior de relação com o mundo – como ocorreu comigo ao ler a crônica de Clarice Lispector.
Para o escritor Abdruschin: “Até agora, da ação viva do espírito, da intuição, só nasceu a arte. (...) Mas o espírito não se manifesta no raciocínio, e sim nas intuições, mostrando-se somente naquilo que de um modo geral se denomina ‘coração’.” Por isso a verdadeira arte tem o dom de ecoar no coração humano: busca sua inspiração em um universo sutil, que só pode ser alcançado pela intuição, jamais pelo pensamento calculista. Chega a ser difícil descrever em palavras o que vivenciamos diante de uma genuína obra de arte: sua mensagem evoca vivências profundas que transcendem os limites do raciocínio, conectando-nos a uma parte essencial de nosso ser.
Diante de toda essa riqueza, será que a comunhão com a beleza não merece um espaço na agenda? Lembrando o conselho de Goethe, resgatar um momento para apreciar uma bela imagem, ouvir uma música inspiradora, ler um texto profundo, entre outras inúmeras possibilidades, pode oferecer um pouco do alimento pelo qual nossa alma atribulada anseia, semeando beleza e harmonia nos caminhos cotidianos.

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Mario Quintana