quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Sentimentos domesticados


Sibélia Zanon

Como quem caminha por um túnel sombrio, deparamos vez por outra com conceitos obscuros e conflitantes e, por estranho que pareça, somos aconselhados a não questioná-los.
O dia das mães, o dia dos pais, entre outros, invadem o imaginário coletivo com o marketing das famílias indiscutivelmente amorosas. Muitos se sentem culpados por não usufruírem da mesma cordialidade que a propaganda propõe ou por questionarem as medidas do amor.

Existe amor compulsório? Admiração compulsória? Ou esse 
tipo de sentimento é norteado, no interior de cada um, por águas mais profundas?
“Como pode uma criança respeitar o pai que se degrada no vício da bebida ou uma mãe que torna todas as horas amargas ao pai e a todos no lar, em virtude dos seus caprichos, pelo seu temperamento desenfreado, por falta de autocontrole e por tantos outros modos que impossibilitam inteiramente o surgir de uma atmosfera serena! Pode uma criança honrar os pais quando os ouve insultar-se mutuamente de forma pesada, quando enganam um ao outro ou quando chegam até a agredir-se?”, questiona Abdruschin em Os Dez Mandamentos e o Pai Nosso.
Sofremos, muitas vezes, em prisões construídas pela pobreza das interpretações, pelos conceitos formatados, que não admitem questionamentos e dúvidas.
Em sua exposição sobre o mandamento Honrarás pai e mãe!, Abdruschin ainda escreve: “O mandamento impõe deveres incondicionais aos pais para que conservem sempre completa consciência de sua elevada missão, e com isso também mantenham sempre diante dos olhos a responsabilidade que nela se encontra”. O mandamento não seria, então, dirigido exclusivamente aos filhos, mas sobretudo aos pais.

A admiração, o respeito e o amor não são objetos, que podem ser vendidos pelo marketing ou inseridos, por meio de conceitos obscuros, no interior de pais e filhos. São, na realidade, sentimentos genuínos, com caráter transformador, que não se deixam domesticar tão facilmente. 


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Um mestre jardineiro


Daniela Schmitz Wortmeyer


Nem sei bem como tudo aquilo começou. O sol do meio-dia, o calor e o desejo de chegar logo e descansar, mais a ansiedade pelo novo, em meio a uma profusão de cores e cheiros. Eu olhava em redor e parecia não acreditar no que via: um jardim extasiante, repleto de múltiplas espécies de variados tamanhos. Frutíferas, floríferas, gramíneas... Eu não sabia para onde olhar primeiro. Quando me dei conta, estava saboreando vorazmente os frutos doces e suculentos de um pé de amora preta com enormes espinhos. As espetadas eventuais nos dedos tornavam aquele momento ainda mais gratificante, com jeito de infância, e com ar maroto eu olhava para os lados, pensando se haveria algum espectador para minha travessura. Mas não havia. Eu estava livre para ser criança de novo, sentindo uma euforia inesperada naquele início de férias.
A experimentação de frutas não parou por aí. Descobrimos carambolas, abacates, lichias, laranjas, mamões, pitangas, amorinhas silvestres... O caminho entre as árvores era bordado por muitas flores, incluindo rosas de diversas colorações: vermelhas, amarelas, rosa-claro, salmão. Em um passeio pela pequena cidade dos arredores, encontramos grandes arbustos de framboesas, que pareciam saídos de um conto de fadas. Percebi como aqueles seres do reino vegetal me remetiam a memórias de encantamento e alegria, difíceis de situar no tempo e no espaço.


O jardim encantador era cultivado por um senhor de origem japonesa, que dias depois contava que levou quarenta anos para alcançar aquele resultado, trabalhando arduamente em um solo pauperizado. Passei a observar com que zelo e paciência o homem idoso recolhia o lixo que passantes deixavam nos canteiros, amarrava delicadamente com fibra de bananeira roseiras maltratadas, inspecionava as necessidades de cada planta, plantava e replantava, apesar das forças contrárias que se faziam sentir de forma intermitente. Aquela persistência silenciosa me comoveu profundamente. Pensei no quanto todo o esforço fora recompensado com o passar do tempo, no quanto o trabalho lento e contínuo produzira efeitos beneficiadores para inúmeros seres, incluindo o próprio jardineiro.
O exemplo do homem idoso me entusiasmou, para a jardinagem e para a vida. Fui a um viveiro de mudas perto dali e ousei escolher várias: framboeseiras, pitangueiras, roseiras arbustivas, e ainda uma jabuticabeira e um pequizeiro. Meu esposo e eu resolvemos também apostar na persistência e plantamos todas em uma área livre ao lado do condomínio onde moramos (em outras épocas, eu havia desanimado, depois de alguns malogros de semeaduras por ações de vizinhos desajeitados...). Outras pessoas também se alegraram com a ideia: o zelador, o síndico, alguns moradores.

E continuamos zelando pelas mudas, cada vez mais desenvolvidas. Outro dia montamos uma treliça para os pés de framboesa se entrelaçarem, pois estão despontando ramos fortes e surgindo as primeiras (belíssimas e deliciosas) frutas. Quando passo pela área onde estão as plantas, esqueço por alguns momentos das preocupações rotineiras e me entrego à contemplação dos brotos e flores, arranco ervas daninhas, podo galhos secos, analiso as medidas necessárias. De certa forma me entrego ao clima de encantamento que me motivou a trazer as mudas para cá, minha alma brinca em uma região que meu cérebro racional não consegue definir, mas que meu coração conhece bem, como o sonho de viver em um jardim de conto de fadas.


É claro que investir em ideais implica correr riscos: todos os dias me estico hesitante pela janela para ver se as mudas ainda estão lá... Deparar-se com a violação de um sonho é sempre uma experiência dura, como quando plantamos mudas que terminam por ser devastadas – na jardinagem como na vida. Confesso que ainda não consigo lidar bem com essa situação, pois o esforço e o cuidado dedicados a um projeto criam laços de afeto que almejam florescer sempre, sem interrupções. Mas a atitude de meu mestre nipônico me ensina que o amor e a confiança podem suplantar fracassos momentâneos, que é possível corrigir e replantar, apesar das forças contrárias. Mesmo que um jardim leve muitos anos para prosperar, as leis da natureza seguem seu curso e trazem, na época certa, generosos frutos aos que com elas labutam. Na jardinagem como na vida.







Fotos: Charles Wortmeyer

sexta-feira, 19 de junho de 2015

As Sete Maravilhas do Mundo Antigo


Jardins Suspensos da Babilônia

“Precisavam caminhar uma certa distância até chegar à torre dos astrônomos. Era quase meio-dia. Todos pararam, como que atordoados, um pouco antes da torre. Quem, alguma vez, havia visto uma suntuosidade e maravilha como aquela? Até Emengal e Iltasa tinham lágrimas nos olhos. Um grupo de crianças, em período de lazer, estavam sentadas numa campina florida, olhando com veneração para as maravilhosas flores, nunca vistas. Os botões, nas trepadeiras de muitos metros que pendiam, haviam-se transformado em flores aromáticas.” 



O que hoje conhecemos como As Sete Maravilhas do Mundo Antigo tem origem em uma lista, feita pelos gregos, que anunciava as sete obras dignas de serem vistas. As obras se destacavam por sua beleza, grandeza, suntuosidade e magnitude.
Apenas uma das maravilhas se localizava na Grécia: a Estátua de Zeus. As demais estavam em outras localidades, como é o caso da Grande Pirâmide de Gizé, no Egito, a única maravilha antiga ainda existente. Povos antigos como os egípcios, judeus e sumerianos interpretavam-na como uma obra rica em simbologia profética.
Em pesquisas arqueológicas há poucos registros sobre a existência dos Jardins Suspensos da Babilônia. Por isso alguns duvidam de sua existência e há versões diferentes no que se refere à sua aparência. Há quem diga que se tratava de uma obra feita pelos homens, constituindo-se em seis terraços, construídos como andares e dando, por
isso, a impressão de suspensos. Lá teriam 
sido plantadas diversas espécies de árvores frutíferas.
Entre as diversas visões, o que existe de unidade a respeito dos jardins é o fato de terem sido algo de beleza estonteante. Bem além das obras construídas pelo homem, a escritora Roselis von Sass descreve os Jardins Suspensos, no livro A Desconhecida Babilônia, como uma maravilha da natureza:
“O que vejo são grandes flores brancas, bem abertas, parecidas com lírios-d’água. Mas a partir destas maravilhosas flores brancas cresce uma outra flor de muitas pétalas, de cor rósea. Pelo menos me parece que cresce da flor branca. As folhas, que inicialmente eram de cor verde-clara, estão agora mais para verde-escura. As flores têm o tamanho da mão de um homem, aproximadamente. Toda a região parece envolta pelo delicado perfume delas.”
Segundo a escritora, o caráter de jardim suspenso se dava porque as chamadas flores da aurora desabrochavam numa trepadeira. “Poder-se-ia supor que as flores pendessem, porque eram grandes e certamente bastante pesadas. Mas se dava justamente o contrário. Elas tinham talos grossos e fortes, crescendo em posição ereta nas trepadeiras.”
Inúmeros e minúsculos pássaros, de cor azul-clara e verde-clara chegavam, atraídos pelo perfume. Eles nunca tinham sido vistos antes no país e, por serem muito pequenos, desapareciam totalmente dentro das flores.
Por mais que se possa imaginar a estonteante beleza dos Jardins Suspensos, pouco se fala sobre o motivo de sua total destruição. Acontece que a cidade de Kadinguirra, situada na antiga Suméria, região sul da Mesopotâmia, onde hoje se situa o Iraque e a Síria, e que mais tarde foi denominada Babilônia, já não era a mesma. O culto ao falso deus Baal crescia e a natureza já não podia ofertar tamanha beleza para habitantes que não sabiam mais admirar, e que, ao ver as flores, imediatamente arrancavam-nas do caule. Com o tempo as trepadeiras se extinguiram, deixando apenas uma saudade no ar.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Desacelerar

Sibélia Zanon

"Atentai para o dia a dia, para o presente em que viveis! 
Pois no presente formamos o nosso futuro!"


Quando criança, nas aulas
 de educação física, apostávamos corrida. Na sala de aula, 
quanto mais rápido fizéssemos a 
atividade, mais tempo teríamos 
para brincar. Ao longo dos anos 
pegamos gosto pela agilidade, mas perdemos um pouco da paciência.
“Para o homem moderno, a paciência é tão difícil de praticar quanto a disciplina e a concentração. Todo o nosso sistema industrial estimula exatamente o oposto: a rapidez”, escreve o psicanalista Erich Fromm.
Não que a rapidez não tenha sua relevância em muitos momentos, mas um estímulo unilateral neste sentido pode gerar um déficit em outras áreas, formando pessoas impacientes, ansiosas, com dificuldade de concentração.
Muitas vezes, passamos a não tirar proveito do presente porque queremos antecipar os acontecimentos. Executamos uma atividade, pensando nas outras coisas que precisamos fazer na sequência, menos no que estamos realmente fazendo.

“O homem moderno pensa que está perdendo alguma coisa – tempo – quando não faz as coisas depressa; mas ele não sabe o que fazer com o tempo que ganha, salvo matá-lo”, alfineta Fromm. Será que sabemos bem aonde queremos chegar com tanta pressa?