terça-feira, 25 de setembro de 2012

Felicidade


Sibélia Zanon


A felicidade dos anúncios de margarina e a felicidade recitada em mantras pelos livros de autoajuda ameaçam qualquer perspectiva de sermos realmente felizes. Afinal poucos têm tempo de tomar café da manhã ao ar livre e ninguém acredita mais em tantas promessas instantâneas. Mas como lidar com uma felicidade que parecia tão simples quando éramos crianças e agora parece algo complicado e incançável? Será que buscá-la é o melhor que podemos fazer?

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Feminilidade aprisionada: será a igualdade uma saída?


Daniela Schmitz Wortmeyer


        Feminino, masculino... Será que em breve essas palavras sairão de circulação, tornando-se mera curiosidade histórica? Homens e mulheres estão cada vez mais parecidos, não apenas em termos de direitos e deveres, mas de atitudes e comportamentos... Será esse um sinal de evolução – ou de massificação?
Valores e costumes transformam-se em matéria maleável, moldada conforme os desejos e conveniências do momento. Qualquer pensamento a respeito de papéis essencialmente femininos ou masculinos é facilmente interpretado como restritivo à “liberdade” de escolha, obsoleto e ultrapassado. Em contrapartida, uma das mais graves restrições à liberdade é justamente a conformidade do senso comum, que impede o exercício do questionamento e a consideração de outras possibilidades de existência. É fundamental refletir sobre quais valores estão servindo de base para a pretensa igualdade entre homens e mulheres, em que medida eles conduzem a um genuíno desenvolvimento humano, antes de fazer coro ao discurso da suposta maioria.
Em um olhar de relance pela História, vemos surgirem a partir da segunda metade do século passado movimentos feministas, contestando com veemência a dominação masculina e a opressão às mulheres nas sociedades humanas. Desde então, assistimos a um crescente avanço da emancipação feminina. Aspectos como o matrimônio e a maternidade, antes considerados como imperativos para que as mulheres cumprissem sua “destinação” na sociedade, são hoje vistos como opções, ligadas a projetos de vida construídos diante de inúmeras possibilidades. A participação das mulheres se ampliou nos setores político, econômico, profissional... Entretanto, se olharmos com mais atenção para essa participação, será que a veremos seguindo um referencial propriamente feminino? Ou terão as mulheres adotado muitas vezes um referencial masculino de sucesso e realização, para serem efetivamente valorizadas na sociedade? Será que realmente atravessamos uma transformação de referenciais rumo a um equilíbrio entre as polaridades masculina e feminina, ou marchamos para a crescente massificação ao ritmo da cadência do mercado?
O psicanalista Erich Fromm, no livro A Arte de Amar, afirma que: “Na sociedade capitalista contemporânea, o significado da igualdade tem passado por muitas transformações. Por igualdade, entende-se a igualdade dos robôs, a igualdade de homens que perderam sua individualidade. Igualdade significa hoje ‘uniformidade’, em vez de ‘unidade’. [...] É por isso que devemos encarar com certo ceticismo algumas realizações que costumam ser celebradas como sinais de nosso progresso, como a igualdade das mulheres. Nem é preciso dizer que não estou falando contra a igualdade das mulheres, mas os aspectos positivos dessa tendência à igualdade não devem nos enganar. Ela vai no sentido da eliminação das diferenças. A igualdade tem seu preço: as mulheres são iguais porque não são mais diferentes. [...] A polaridade dos sexos está desaparecendo e, com ela, o amor erótico, que se baseia nessa polaridade. Os homens e mulheres tornam-se a mesma coisa, em vez de serem iguais como os pólos opostos.”
Se analisarmos muitas das publicações atuais sobre sucesso profissional, veremos a exaltação de características como empreendedorismo, ambição, competitividade, liderança, orientação para resultados e, de forma explícita ou não, alguma dose de agressividade. Além disso, um excelente profissional deveria ter como prioridade máxima a empresa, com disponibilidade em tempo integral, sem demandas ligadas a necessidades pessoais ou familiares. Um padrão a ser seguido por homens e mulheres indistintamente, calcado na ação quase ininterrupta, sem espaço para a introspecção e a reflexão. Todos se tornam máquinas a serviço da produção e do consumo, sem tempo para cultivar valores mais sutis. A educação assume cada vez mais os contornos de uma linha de produção de ferramentas úteis para o mercado, sem espaço para a singularidade e o desenvolvimento humano em sentido abrangente. Trata-se o conhecimento sob uma perspectiva instrumental e utilitarista, eliminando-se o genuíno prazer de descobrir o mundo e a si mesmo, de explorar potencialidades para pensar, sentir, fazer e criar, inerentes à efetiva realização humana. A marginalização das disciplinas humanísticas, artísticas e lúdicas foi apenas o começo desse processo, que hoje culmina com o esvaziamento dos currículos escolares de modo geral.
A esse respeito, a emancipação feminina representou uma mudança mínima. Ao contrário, grande parte das mulheres enquadrou-se diligentemente nesses padrões masculinos de realização, reforçando-os ao invés de oferecer alternativas. Uma verdadeira transformação teria sido provocada pela efetiva emergência de valores femininos em complemento ao polo masculino, como veremos a seguir.
No livro O Tao da Física, o físico Fritjof Capra observa que: “Nossa cultura tem favorecido, com firmeza, valores e atitudes yang, ou masculinos, e tem negligenciado seus valores e atitudes complementares yin, ou femininos. Temos favorecido a autoafirmação em vez da integração, a análise em vez da síntese, o conhecimento racional em vez da sabedoria intuitiva, a ciência em vez da religião, a competição em vez da cooperação, a expansão em vez da conservação, e assim por diante. Esse desenvolvimento unilateral atinge agora, em alto grau, um nível alarmante, uma crise de dimensões sociais, ecológicas, morais e espirituais.”
O desenhista e educador Santiago Barbuy, na obra O Espaço do Encontro Humano, apresenta um raciocínio análogo, analisando a forma como as metrópoles contemporâneas se estruturam e os relacionamentos humanos que refletem e ensejam. Para ele, as cidades estão saturadas de aspectos yang, ligados ao determinismo, planificação, previsão, controle, em suma, ao “cheio”, e carecem de “vazio”, de valores yin relacionados à incerteza, à instabilidade, ao sonho e ao silêncio. “Um som vale no tempo quando é precedido e sucedido por um silêncio apropriado. Um volume material corpóreo depende da funcionalidade do espaço vazio que o rodeia. É tão importante o som quanto o silêncio; o espaço cheio quanto o espaço vazio. E a cidade é um amontoado de volumes que carecem do vazio que lhes corresponde.”
Para Barbuy: “O espaço vazio se carrega de futuro; por isso, no espaço vazio se alojam a imaginação, o sonho e a poesia. O espaço vazio é o âmbito dos valores anímicos.” Tal constatação tem implicações profundas nos relacionamentos humanos: “Somente quando em um ser humano ou em um grupo social se começa a manejar os valores de ausência, silêncio, carência e vazio, pode-se reconhecer uma sabedoria na convivência.”
Segundo Fritjof Capra, o “significado original das palavras yin e yang correspondia aos lados ensombreado e ensolarado de uma montanha”. Ele ressalta que: “Desde os primeiros tempos, os dois polos arquetípicos da natureza foram representados não apenas pelo claro e pelo escuro mas, igualmente, pelo masculino e pelo feminino, pelo inflexível e pelo dócil, pelo acima e pelo abaixo. Yang, o forte, o masculino, o poder criador era associado ao Céu, enquanto yin, o escuro, o receptivo, o feminino, o maternal, era representado pela Terra.”
As qualidades propriamente yin ou femininas, portanto, estariam ligadas à receptividade, consolidação e sustentação dos processos, à nutrição das formas de vida, à subjetividade, ao silêncio e à introspecção, ao passo em que as qualidades yang ou masculinas relacionam-se à atividade, à expansão e realização material imediata, à objetividade e à movimentação. De forma semelhante às extremidades de uma bateria, yin corresponderia ao polo negativo, e yang ao positivo.
Isso não significa que homens e mulheres possuam exclusivamente características yang ou yin.  Como representado no conhecido Diagrama do Supremo Fundamental, que expressa o movimento do Universo na interação dinâmica entre as polaridades opostas, cada extremo guarda em seu interior a semente do seu oposto. Todos os seres possuem em si ambas as polaridades, em diferentes proporções. O caminho da sabedoria consistiria na busca do justo equilíbrio entre esses elementos opostos. Um equilíbrio polarizado, em que cada ser permaneça fiel à sua natureza.
Na palestra O Ideal Feminino, a professora Lúcia Helena Galvão identifica características típicas de sociedades em desequilíbrio, com a polaridade feminina em desvantagem. Nesses casos, há tendência ao expansionismo exacerbado, sem clareza das finalidades que se deseja atingir e sem tempo para consolidação das conquistas. Há mecanicidade nos processos, que se pautam na repetição e provocam tédio, fruto da perda de contato com a motivação essencial das ações. A quantidade torna-se mais importante que a qualidade. Outra característica é o desrespeito à Natureza, representada como a Grande Mãe em diversas tradições. Há predomínio da tecnocracia, a supervalorização da técnica em detrimento da vida. O progresso material sobrepuja os valores humanos e espirituais. Observa-se, também, o predomínio do prático sobre o estético, de modo que tudo se torna funcional, mas não belo, e consequentemente sem vida.
Em antigas culturas, a mulher desempenhava o papel de guardiã do fogo, um elemento sagrado, preservado no centro das cidades e de cada lar. Lúcia Helena Galvão considera que essa prática não tinha um significado meramente material – já que as civilizações não poderiam se desenvolver longe do fogo – mas guardava um profundo simbolismo. O fogo era associado à motivação essencial dos seres humanos, de forma que cabia às mulheres guardarem a memória do sentido da ação, do espírito em torno do qual a civilização se constrói. Por isso, eram consideradas as grandes educadoras do povo. Se dermos continuidade a esse enfoque, concluiremos que a ausência do feminino trará como reflexo uma generalizada perda de referenciais na sociedade, exatamente como ocorre em nossos tempos.
Fritjof Capra analisa que, mais recentemente, a noção de complementaridade dos opostos passou a ser adotada pela Física moderna, particularmente para explicar os complexos fenômenos subatômicos, que desafiam a rigidez dos conceitos racionais abstratos. Ele destaca que, conforme ensina a sabedoria oriental, os opostos constituem na realidade uma unidade, com sua interação dinâmica na base de todos os processos vivos. Em essência não haveria superioridade de um polo sobre o outro, pois ambos são igualmente necessários. O escritor Abdruschin observa que as correntes de força feminina e masculina “atuam, ou passiva ou ativamente, uma ao lado da outra e, contudo, almejam permanentemente uma pela outra, uma vez que ambas as espécies somente podem realizar algo completo na atuação conjunta.” Em termos sociais, a cooperação harmônica das diferentes formas de atuação permitiria a realização humana em sua plenitude.
Assim, uma verdadeira “revolução feminina” caminharia na direção contrária à masculinização dos valores e costumes. Para uma autêntica transformação, é preciso resgatar o lugar do feminino dentro de cada ser humano e na sociedade, rumo ao equilíbrio perdido. Mais que seguir qualquer estereótipo, isso significa recuperar um modo de atuação. Uma visão de mundo que integre a delicadeza e o cuidado, o respeito a todas as formas de vida, o cultivo da beleza e da harmonia, o espaço para o sonho e a reflexão: um modelo de desenvolvimento propriamente humano, em que o progresso material seja guiado por valores espirituais.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Lua de Mel


Sibélia Zanon

— Cláudia, não pode ser. Brincadeira! Seis meses com essa bicicleta e você ainda não sabe?
A voz do rapaz ecoava no silêncio da montanha, na pousada quase deserta.
Fiz um alongamento do fundo da minha rede para ver o que acontecia. Era um casal jovem e bonito. Os mesmos que haviam jantado no restaurante da pousada na noite anterior. O cardápio co- meçava com um creme de mandioquinha. Depois chegou uma truta, feita na hora, com massa fresca, salpicada de tomates e shitake. Tudo arredondado por um bom vinho tinto e nossas duas mesas – as únicas ocupadas naquela noite – foram privilegiadas pela simpatia do chef e pela MPB que tocava soltinha e sem pressa. Lá da minha rede, imaginei: qual daqueles ingredientes teria feito o casal amanhecer com um espírito tão ácido?
O moço continuava segurando a bicicleta impaciente, enquanto Cláudia, agachada, mexia nos pneus e nas rodas, fazendo sei lá o quê.
Decidi que a culpa da acidez não era dos ingredientes da noite anterior. Talvez fosse uma úlcera antiga dando alfinetadas. A paisagem também não devia ser o motivo: montanhas verdes, sol penetrando o ar fresco de outono, grevíleas-anãs chamando beija-flores. A pousada levava a umaestrada de terra no meio de araucárias, ótima para um passeio de bicicleta.
— Cláudia, hoje você tem que aprender. – ele insistia com o ar austero de um professor de jardim de infância, na época em que ainda se colocavam orelhas de burro nas crianças. A moça continuava agachada com as mãos nos pneus.
Decidi que eles dormiram mal. A lareira do chalé deles devia ter algum defeito ou talvez as toalhas não estivessem tão brancas como as minhas. A conversa da bicicleta não mudava de lugar, então resolvi sair da rede e arrumar minha bagagem. Em alguns minutos eu seria obrigada a trocar aquela paisagem mineira nostálgica pela chegada impactante em Guarulhos.
Enquanto guardava as minhas coisas, tive um repentino ataque de felicidade por estar ali sozinha, sem nenhum ser humano em volta para avaliar a minha performance em qualquer atividade.
No caminho para o carro, ainda ouvi um tom agressivo, já sobre outro tema, que vinha de longe:
— Você me dá o que você quiser, Cláudia. Pode ser uma calça jeans, tanto faz, sei lá.
Acho que a Cláudia estava gripada porque não escutei a voz dela em nenhum momento. Foi uma pena. Se ela tivesse falado qualquer coisa, eu saberia o nome do chato do marido dela.


Roselis von Sass


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Lixo: o que ele reflete sobre nós?


Daniela Schmitz Wortmeyer


Sempre que passávamos de carro por aquele parque, eu pensava: “temos que vir fazer um piquenique debaixo dessas árvores”. Idealizava um domingo de manhã reservado à contemplação, com direito a café com leite e pão de queijo, ouvindo o canto dos passarinhos e o vento acariciando as folhas. Sentia-me privilegiada em morar em uma cidade onde há extensos parques públicos - uma raridade em nosso País - e finalmente resolvi usufruir dessa possibilidade. Munidos de máquina fotográfica, quitutes e protetor solar, lá fomos nós concretizar o tão sonhado “domingo no parque”. Porém, ao chegar perto das maravilhosas árvores, percebemos algo que não se via de dentro do carro: lixo, muito lixo, distribuído por todos os lugares onde se poderia fazer uma parada.
Embalagens de alimentos, papéis sujos, restos de cigarros e até preservativos usados se misturavam à relva sob a copa das árvores, pisoteados e meio camuflados na paisagem. Apenas ao chegar perto se conseguia distinguir a gravidade da situação, de modo que caminhamos muito até encontrar um local menos sujo para nos instalarmos. Diante desse triste quadro, fiquei pensando: “Como pode alguém sujar um lugar tão belo? Será que as pessoas calculam como ficará esse parque, construído para o lazer delas próprias, com o acúmulo de lixo? Por que em alguns lugares do mundo o espaço público é visto como ‘terra de ninguém’, em vez de ser abraçado por todos?”
Lembrei-me da época em que fazíamos caminhadas nas matas. Era fácil saber se alguma pessoa havia passado em uma trilha antes de nós: a maioria deixa um rastro de lixo, mesmo em locais ermos e de difícil acesso. Também nas ruas das cidades, o bicho-homem deixa a marca de sua insensatez pelos resíduos abandonados. Na clássica obra “Fim do futuro? Manifesto ecológico brasileiro”, o ambientalista José Antônio Lutzenberger afirma que: “O homem moderno (...) tornou-se incapaz de sentir profundamente o belo, não se incomoda com a feiura, com o lixo e a agressão na paisagem, falta-lhe a ânsia de alcançar a harmonia em torno de si.”
“Falta-lhe a ânsia de alcançar a harmonia em torno de si.” Detive-me nessa frase e fui procurar a origem da palavra harmonia no Dicionário Houaiss. Vem do grego harmonia, que significa união, encaixe, acordo, ordem. Está relacionada ao princípio da unidade. Diante disso, cogitei que talvez os “jogadores de lixo” contumazes não se percebam unidos ao ambiente que os circunda, portanto não lhes faz sentido buscar uma harmonização. Não consideram que a embalagem plástica que deixam para trás não irá se deteriorar instantaneamente. Sequer atinam os prejuízos que esse pequeno gesto trará ao meio ambiente, afetando toda uma cadeia de seres vivos e, finalmente, os próprios seres humanos.
Para o físico Fritjof Capra, no livro “O Tao da Física”, atitudes como essa são reflexos de uma visão fragmentária construída pela humanidade ao longo dos últimos séculos: “A crença de que todos esses fragmentos – em nós mesmos, em nosso ambiente e em nossa sociedade – são efetivamente isolados pode ser encarada como a razão essencial para a atual série de crises sociais, ecológicas e culturais. Essa crença tem nos alienado da natureza e dos demais seres humanos, gerando uma distribuição absurdamente injusta de recursos naturais e dando origem à desordem econômica e política, a uma onda crescente de violência (espontânea e institucionalizada) e a um meio ambiente feio e poluído, no qual a vida não raro se torna física e mentalmente insalubre.”
Diversos religiosos, sábios e cientistas constataram, através dos tempos, que a ideia de fragmentação, separação ou isolamento entre os elementos que compõem o Universo é uma ilusão, decorrente de uma percepção superficial dos fenômenos da vida. Na realidade não estamos separados, mas unidos a tudo e a todos, em um colossal sistema de influências recíprocas. Até mesmo nossas menores ações ecoam sobre o todo, circulando e retornando em seus efeitos ao ponto original. Isto é, ainda que sequer nos lembremos de certos atos praticados, somos responsáveis pelas consequências, como alerta o escritor Abdruschin: “Em cada querer inicial o ser humano produziu e criou algo, no qual ele mesmo, mais tarde, em prazo curto ou longo, terá de viver.”
Minhas reflexões alcançaram os “lixos” menos visíveis que produzimos cotidianamente: palavras inconsequentes, atitudes mesquinhas, sentimentos conturbados, pensamentos confusos e perniciosos... Resíduos perigosos deixados pelos caminhos do mundo. Se não forem tratados a tempo, geram sofrimento e deterioração de nosso ambiente humano, assim como ocorre com os dejetos materiais descartados de forma negligente.
Se o visível reflete o invisível, como ensinam antigas tradições, a poluição que cresce a olhos vistos em nosso mundo pode ser encarada como reflexo de um “ambiente invisível” pouco limpo. Um somatório de inúmeras escolhas desarmoniosas, de formas de pensar, sentir e agir que não contribuem para a elevação do ser humano e dos demais seres que habitam o Planeta, mas para sua destruição.
Assim, o lixo nos espaços públicos é apenas uma expressão palpável da alienação em que nos encontramos, que nos torna indiferentes à feiura, ao lixo e à agressão na paisagem, como observou Lutzenberger. Com o hábito de focalizar apenas interesses imediatos, parece que perdemos a consciência de que hoje lançamos as sementes de nosso futuro. Se no momento presente já vemos tanta desarmonia ao nosso redor, o que será do amanhã?
Para sermos novamente capazes de sentir profundamente o belo e de buscar a harmonia em nosso ambiente, acredito que o primeiro passo seja harmonizar a paisagem de nossa própria alma - transformando o incômodo lixo no adubo que alimenta as flores da virtude. A esse respeito, há 2.400 anos o sábio Platão ensinava: “A harmonia se obtém pela virtude.”

“Os teus homens não têm juízo
Esqueceram tão grande amor
Ofereces os teus tesouros
Mas ninguém dá o teu valor.
Terra, Terra eu sou teu filho
Como as plantas e os animais
Só ao teu chão eu me entrego
Com amor, firmo tua paz.”
(Estrelada, Milton Nascimento)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Em busca de Shangri-la


Sibélia Zanon


Às vezes me sinto cansada desta época, em que o telejornal consegue ser mais assustador do que um filme de terror. Arrisco-me numa realidade imaginada, daquelas que só os poetas sabem explicar. “Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada”, brinca Clarice Lispector.
Há os que buscam a realidade sonhada em Shangri-la, Ítaca ou Pasárgada. Manuel Bandeira já avisava: “Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei”. A literatura, o cinema, a música, as artes em suas variadas formas nos ajudam a mudar muitas vezes o canal, nos ajudam a sair da frequência do telejornal e a experimentar uma viagem. Mas como toda viagem, essa também tem fim.
O perigo acontece quando não queremos voltar. Neste caso seguimos, infelizes, sonhando. Desajustados dentro da própria pele, nos sentimos vitimizados por um mundo que não nos ama. Somos nocauteados pela vida que não nos oferece atalhos até Shangri-la. Sonhamos de uma forma tão irreal que ficamos paralisados, sem conseguir dar um próximo passo.
“Para muitos, um assim inocente sonhador já atua diretamente pela conversa, como um veneno de ação lenta, corroendo, destruindo, pois ele é capaz de desviá-los da vida terrena normal, e com isso sadia, com suas explanações de ideias, para conduzi-los ao reino daquilo que é impróprio, irreal para a existência terrena.
Note-se bem: eu não digo que um tal sonhador seja impuro ou mesmo ruim, ao contrário. Pode ele querer o melhor, mas sempre o desejará de modo irreal para a Terra, de praticabilidade impossível, e dessa forma não atua para a existência terrena de modo benéfico, mas sim dificultando, destruindo”, considera o escritor Abdruschin, em Na Luz da Verdade.
Em uma entrevista à revista Veja, o filósofo inglês Roger Scruton faz uma crítica ao otimismo exacerbado: “Não falo do otimismo como virtude, nem da esperança ou da fé, que servem para a elevação espiritual do indivíduo e fomentam inovações e avanços. O otimismo prejudicial é o desmedido ou, como disse o filósofo Arthur Schopenhauer, o otimismo mal-intencionado, não escrupuloso. É o tipo de pensamento que está por trás de todas as tentativas radicais de transformar o mundo, de superar as dificuldades e perturbações típicas da humanidade por meio do ajuste em larga escala, de uma solução ingênua e utópica, como o comunismo, o fascismo e o nazismo”.
Se corremos o risco de um sonhar paralisante e de um otimismo utópico - e não queremos cair no conformismo insosso que nos transmutaria no inseto de Kafka - o que nos resta?
Para sonhar com alguma chance de realização é preciso partir do entendimento de que a realidade que se tem em mãos é a única disponível e para chegar até a Shangri-la desejada vamos ter que levantar do sofá e suar a camisa. Talvez seja necessário desobstruir as ruas para poder passar, talvez seja necessário tirar o peso excessivo da mochila e reciclar conceitos e pensamentos.
Segundo Abdruschin, aqueles que buscam por ideais são os “que têm em mira, sim, um alvo grande, muitas vezes grandioso, nunca chegando aí, porém, a fantasias, antes se firmam solidamente na vida terrena com ambos os pés, a fim de não se perderem naquilo que é irreal na Terra. Esforçam-se, degrau por degrau, por atingir o alvo amplamente planejado com visão sadia e mãos habilidosas, sem, entrementes, prejudicar outras pessoas que não merecem”.
Sonhar com os pés na realidade pode dar trabalho, mas é isso que vai nos tornando mais leves para uma viagem tão longa e difícil como parece ser o caminho até Shangri-la. Reserve os sonhos inconsequentes para vivê-los no cinema e na literatura e depois volte. A realidade precisa de cada um de nós.

"Não percas Ítaca de vista,
pois chegar lá é o teu destino.
Mas não apresses os teus passos;
é melhor que a jornada demore muitos anos
e o teu barco só ancore na ilha
quando já estiveres enriquecido
com o que conheceste no caminho.

Não esperes que Ítaca te dê mais riquezas.
Ítaca já te deu uma bela viagem;
sem Ítaca, jamais terias partido.
Ela já te deu tudo, e nada mais te pode dar.

Se, no final, achares que Ítaca é pobre,
não penses que ela te enganou.
Porque te tornaste um sábio, viveste uma vida intensa,
e este é o significado de Ítaca." 

Konstantinos Kavafis